quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Assédio moral

    Uma das conclusões da pesquisa coordenada pela médica do trabalho Margarida Barreto é que esta tortura psicológica que é o assédio moral, se transformou em um problema de saúde pública. Dependente do trabalho para as suas satisfações morais, sociais, afetivas, psicológicas e materiais, inúmeras pessoas vêem-se à mercê de ditadores, que dificultam ou até mesmo impossibilitam-no de exercer o seu direito de trabalhar e de viver de forma saudável. 

    Assim, gradativamente, desaparece o equilíbrio físico e psíquico do indivíduo, sem que o veneno que o desencadeou seja visto. Sabe-se, hoje, que a auto-estima é um dos pontos de partida para que o homem seja engajado na vida como pessoa e cidadão, mas submetido a humilhação constante no trabalho sua saúde corre risco e começa a corroer-se pela baixa auto-estima, pelas práticas perversas das relações sociais, como as do trabalho. 

    Aos poucos, o indivíduo vai perdendo suas forças e luta para manter-se, mas, em geral, a pressão é tanta que os erros, as doenças físicas e emocionais passam a atingi-lo. Suas relações pessoais são afetadas. Após cada doença o assédio moral se acirra, como numa cena de terror. Muitas vezes, quando volta, depois de um afastamento, encontra outro em sua função, ficando até sem lugar para ficar. Outras vezes, o agressor não lhe dá mais trabalhos para que sinta a sua inutilidade. Os colegas têm medo de aproximar-se e serem retaliados, por isso aquele que é agredido fica sozinho. 

 
  Agressivos, apáticos, negligentes, preguiçosos, lerdos são rótulos comuns nesse tipo de fenômeno. Com sua auto-estima abalada, as drogas legais ou não (como o álcool) passam a fazer parte de sua vida e a derrocada é rápida e muitas vezes sem chance de recuperação. O homem tornou-se o seu maior adversário. As guerras e a criminalidade denunciam abertamente este fato, mas o assédio moral sorrateiramente abala a base de pessoas no trabalho, sem que a mídia lhe dê o merecido destaque. 

    O assédio moral é como um inimigo invisível que pouco se pune. O assédio moral é nocivo à saúde do trabalhador e, consequentemente, à da sociedade. É como uma doença que se alastra e que se precisa combater e a arma é a Justiça, que também precisa da solidariedade das pessoas para que possa agir. Testemunhas são necessárias para que algum fato seja dado como verdade. A eficácia jurídica depende da sociedade, precisa de denúncias e de comprometimento. 


    O combate ao assédio moral pela Justiça é uma questão internacional, portanto, já há um espaço aberto para combatê-lo. Lembramos que a consciência, a percepção da realidade e a luta em grupo estão intrinsecamente ligadas à eficácia jurídica e que o Direito é que garante a estabilidade social e o direito dos indivíduos.





Bibliografia: BARRETO, M. Violência, saúde, trabalho: uma jornada de humilhações. São Paulo: EDUC, 2001.




Autora: Mara Vidigal Darcanchy* 

(*Mestre e Doutora em Direito das Relações Sociais - Direito do Trabalho - PUC/SP)


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Mutirão - Fazer ou não fazer, eis a questão

                                                                                                                                                                                              "Sem esmorecer para não desmerecer"
(Oswaldo Cruz)


    No Brasil desde o inicio do século XX, o Aedes Aegypti é causador de um dos maiores problemas de saúde pública do país, a Dengue. O mosquito que também transmite os vírus Zika, Febre Amarela e Chikungunya se tornou o inimigo nº 1 da nação.

    Discussões sobre como controlar o avanço do mosquito e diminuir a incidência dessas doenças ocupam a agenda das autoridades Municipais, Estaduais e Federais. No dia 09 de junho deste ano foi realizada uma audiência pública da Comissão da Agricultura e Reforma Agrária, onde foi defendido pelo Sindicato Nacional das Empresas de Aviação agrícola o uso de aplicação aérea de inseticidas como uma alternativa para evitar novas epidemias de doenças provocadas pelo Aedes. O Ministério da Saúde defende o aprofundamento dos estudos antes que seja autorizada a realização de um projeto- piloto devido a possível contaminação por agentes químicos na população.

    Sabendo do risco de contaminação na aplicação aérea e das tentativas infrutíferas de eliminação do mosquito, qual seria o melhor método para acabar de vez com esse mal que nos assola?

Ontem

    Oswaldo Cruz conseguiu essa proeza em 1907, acabando com a Febre Amarela no Rio de Janeiro. Em 1958 foi finalmente reconhecida a erradicação do Aedes Aegypti pela Organização Mundial de Saúde, mas como ele conseguiu? 

    Oswaldo Cruz criou, dentre outras medidas, as Brigadas “Mata-Mosquitos” que agiam com rigor na cidade, invadiam imóveis, mesmo sem a permissão dos proprietários, eliminavam e tratavam todos os tipos de locais que pudessem ajudar a proliferação do mosquito.

Hoje 

    O trabalho de Controle de Endemias, mesmo com todo apelo por meio de propagandas e programas educativos contra o Aedes, de forma geral esbarra na falta de colaboração da população que ainda não reconheceu a importância da parceria com os Agentes de Controle de Endemias e Agentes Comunitários de Saúde, tendo em vista que cerca 80% dos criadouros estão dentro de casa.

    No município do Rio de janeiro o Agente de Controle de Endemias é responsável por um território fixo com abrangência de até 1200 imóveis por ciclo, o que possibilita a formação de um vínculo mais humanizado com os moradores e conhecer os pontos críticos da comunidade, facilitando a detecção e eliminação de focos com maior eficiência. Todavia, a territorialização do Agente ainda não conseguiu acabar com um problema grave, o alto índice de pendências, ou seja, casas fechadas, em algumas localidades o índice ultrapassa 50% dos imóveis. 

    Os motivos de encontrarmos muitas casas fechadas variam: imóveis abandonados, outros para venda ou aluguel, alguns ficam fechados porque os moradores trabalham fora, outros por causa do medo de abrir as portas por conta da violência urbana. Independente do motivo, o trabalho fica prejudicado e imóveis com possíveis focos não são vistoriados.

Uma boa alternativa para contornar o alto índice de pendência é o Mutirão


O Olhar do Morador

Mutirão dos ACEs em Bangu.
    Muitas vezes o morador não abre o imóvel com medo de sofrer algum tipo de violência, sem saber se aquela pessoa que bate à porta é realmente um Agente, mas quando ele se depara com a rua cheia de trabalhados e percebe a participação de seus vizinhos, o morador fica mais confiante e assim conseguimos derrubar o Índice de pendência em mais de 20%. Se o mutirão for realizado nos finais de semana o número cai em até 40%.


O Trabalhador

    O trabalho solitário do Agente de Controle de Endemias também oferece riscos, principalmente as mulheres que são alvos de pessoas desequilibradas, existem muitos relatos de mulheres que foram assediadas e assaltadas nas ruas. Lembremos o caso da Agente Comunitária de São Paulo que foi estuprada e encontrada morta no ultimo dia 30 de junho. A Agente havia sido chamada por um paciente, que cometeu o crime. Também aconteceu com nosso colega Agente de Endemias Júlio Baptista que foi brutalmente assassinado em uma comunidade do Rio de Janeiro em julho de 2009.

   O trabalho em mutirão propicia maior segurança tanto aos agentes quanto aos moradores aumentando assim o número de imóveis alcançados. Nas áreas em que o Agente de Controle de Endemias esta integrado com a equipe de Saúde da Família os benefícios são ainda maiores, os mutirões aumentam o vínculo da equipe e a troca de experiência multidisciplinar.

    O Plano de Contingência Municipal RJ 2016-2018, integra ainda mais as atividades entre ACE e ACS, a fim de conter o crescimento dos casos de microcefalia associados ao Zika Vírus, o Agente Comunitário de Saúde indica onde estão e quem são as gestantes a serem assistidas, auxiliam os Agentes de Controle de Endemias nas vistorias dos imóveis e indicam pontos críticos da comunidade. 

   
ACEs da CF Rosino Baccarini em mutirão,
Apoio da equipe: Carol Vale.
Integração, socialização, humanização, segurança e eficiência, o mutirão une a todos em um só propósito, eliminar o Aedes Aegypti. 


Juntos Somos Fortes!


ATCERIO

Rio de Janeiro, 02 de agosto de 2016.

Colaboradora: Carol Vale (Cap 5.1)

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Política de proximidade

                  "A proximidade gera familiaridade, que por sua vez, gera confiança." 
(Nocholas Sparks) 

   O modelo de política de proximidade que gostaria de abordar, por hora, é aquele que possui uma maior relação de aproximação de nossa parte com o cotidiano da população a qual interagimos no dia-a-dia e que nos tornemos assim, mais visíveis aos olhos dos diferentes sujeitos que lidamos. Pensar política de proximidade é, antes de tudo, compreender o potencial de articulação entre os diversos atores envolvidos em nosso cenário (profissionais, população, gestores) no universo da promoção em saúde.

   Indico praticarmos a política de proximidade no contexto daqueles que vão até os domicílios das pessoas, dos que se fazem presentes no cotidiano das comunidades e dos que experienciam as realidades dos territórios da forma mais particular/individual possível. Nas atividades de controle de endemias realizado por agentes espalhados no campo, os ACE percorrem o município inteiro com o objetivo de promover a saúde, e o fizeram muito bem no ano de 2015, onde realizamos 10 milhões de visitas domiciliares. Para muitas comunidades, esses atores são os únicos sujeitos públicos que chegam tão próximo delas. Essa particularidade dá aos agentes a capacidade de poder articular informações específicas para atuar sobre localidades tão singulares. 

   No campo da saúde coletiva, na maioria das vezes, o território é compreendido apenas sob a égide da norma, ou seja, como mero palco onde as ações devem ser desenvolvidas. Quando, de fato, a categoria território deve ser usada na compreensão do espaço vivido das populações para subsidiar as intervenções propostas pelas políticas de saúde e demais intervenções. A partir do momento que os agentes visitam os domicílios, conversam com as pessoas, relacionam-se com as comunidades, eles passam a entender que o território não é estático, abstrato, mera cartografia. O território é dinâmico, complexo e representa como a sociedade se relaciona.

   Utilizar o território apenas como categoria de divisão do processo de trabalho, através de mapeamentos, esquadrinhamento do espaço, definição de áreas de abrangência, é reduzir o potencial de análise do cotidiano das populações que é condição para pensarmos ações de promoção da saúde e interferência no cotidiano. Precisamos fazer política de proximidade para transcender dados quantitativos, definido por um conjunto de imóveis, quadras ou bairros.

   A Vigilância em Saúde possui táticas operacionais para visitar residências, pontos comerciais e espaços simbólicos para as populações no seu cotidiano. Esse poder deve ser potencializado pelos agentes de campo. As informações repassadas e conhecidas representam troca e poder. Saber o que acontece, onde e como acontece são desafios cada vez mais perseguidos por gestores e executores de políticas públicas, mas somos nós quem dominamos isso, pois estamos presentes ativamente no território. A aproximação gerada no campo que é fruto de visitas domiciliares deve ser transformada em informação visando o empoderamento dos diferentes atores (comunidades, agentes de campo, outros profissionais de rua, transeuntes). Neste sentido, somente pensar o território em agrupamento de quarteirões ou o estabelecimento de áreas de abrangência para atuação, não corresponde à territorialização ideal dos agentes, na forma como defendo aqui. 

   O trabalho do ACE não se resume à prática de monitorar o ambiente, intervindo por meio de técnicas de tratamento ambiental e educação, mas também compete informar às pessoas presentes nos imóveis visitados a situação de saúde e cotidiano, com base nas informações coletadas nas visitas rotineiras e observações do contexto. Faz-se necessário a prática cada vez mais constante da política de aproximação com a sociedade.

ATCERIO

Rio de Janeiro, 27 de julho de 2016.

Colaboradora: Eliza Abrantes (Cap 3.2)